A PROVA DE AUDITOR - SEGUNDA PARTE

Chegando na casa dos meus tios após esta primeira etapa procurei não gastar muitas energias comentando a prova, e muito menos estudando como um desesperado para a prova do dia seguinte. Me limitei a dizer que a prova foi boa e que o pesado viria no dia seguinte.

 

Sobre esta passagem do primeiro para o segundo dia de provas, é preciso fazer um parênteses sobre o que acontece em todos os concursos nos quais nos inscrevemos fora de nossa terra natal. No meu caso não aconteceu porque tenho familiares em Belém, mas normalmente os candidatos no final de semana do concurso, lotam os hotéis da cidade em uma estada que em nada tem a ver com turismo.


O resultado é o grande acúmulo de candidatos no mesmo lugar, muitas vezes dividindo quartos quádruplos. É fundamental que o candidato lembre-se dos três requisitos do sucesso no concurso público: objetividade, disciplina e método. É inadmissível uma noitada na véspera da 2a prova. Isto já seria um absurdo.


Mas algumas atitudes, que nem parecem um absurdo, também devem ser evitadas nestes momentos anteriores ao 2° dia de provas, tais como:


• Tomar uma cervejinha descompromissada;
• Sair para conhecer a cidade;
• Perder tempo e energia discutindo questões da prova que passou com pessoas que, às vezes, você nem conhece direito e estão esperando só um pé para descarregar suas mágoas de concursos passados;

• Se desgastar discutindo futebol, política ou religião com amigos ou estranhos;
• Comidas típicas do lugar, correndo o risco de no dia seguinte se transformar em uma orquídea passando o dia inteiro no vaso;
• Ficar até tarde da noite estudando para o dia seguinte;
• Tentar solucionar questões de difícil resolução.


Este definitivamente não é o momento de tentar aprender setores da matéria que ainda não estão totalmente consolidados.

Recomendo neste intervalo de dias de prova que o candidato realize atividades leves como:


• Um telefonema para casa para receber mensagens de ânimo, desde que sem comentários sobre a prova que passou;
• Um almoço leve em restaurante que apresente comidas que o candidato já está acostumado a comer;
• Se o hotel está próximo de uma praia ou área verde, vale a pena sair sozinho para pegar um ar, não demorando mais do que 1 hora;
• E finalmente uma calma leitura dos blocos de fichas, pulando durante a leitura as matérias que não farão parte das provas do dia seguinte.


Lembre-se que neste intervalo de provas nossa mente precisa de repouso e concentração. A atividade cerebral deve ser dirigida para o objetivo de manter o equilíbrio mental, sem qualquer tipo de exagero ou fatos que possam estressar nossos neurônios neste momento.


O dia seguinte.
 

Acordei normalmente sem ansiedades ou nervosismo. Me auxiliou muito o treinamento nos simulados anteriores, realizados nos cursinhos. O simulado, como mencionamos no capítulo “Os Simulados”, é o que de mais próximo podemos fazer para tentar antever o que é um clima de prova.


A etapa da manhã seria de apenas 3 horas de prova com as matérias específicas de Aduana: Comércio Exterior e Relações Econômicas Internacionais.

 

Minha grande dificuldade no concurso foi esta etapa. O principal motivo foi o tempo de preparação exígüo de 2 meses apenas.

 

Em relação a este momento recomendo a leitura do capítulo “Não Atire Para Todos Os Lados”. Minha lembrança sobre esta prova de Comércio Exterior não é das melhores. Não consegui reservar a meia hora final para o preenchimento do cartão-resposta, e tive que mudar de tática neste final para não correr o risco de preenchê-lo apressadamente e errar alguma marcação. Meu procedimento de desespero, que recomendo para os candidatos que se encontrarem em situação semelhante, foi marcar o cartão-resposta ao mesmo tempo em que ia resolvendo as últimas questões.


Quando o relógio marcou meia hora para o final da prova, peguei o cartão-resposta e repassei todas as marcações que havia feito na prova para ele, porém, ficaram faltando ainda cerca de 15 questões grandes para resolver. Nesta situação tive que adotar a tática que já mencionei, para não correr o risco de fazer as 15 questões, ou nem mesmo chegar a concluí-las, e não ter tempo para repassar as marcações para o cartão-resposta.

 

O final desta prova foi de alta adrenalina, a fiscal puxando a prova da minha mão e eu terminando de fazer a última marcação no cartão-resposta.

 

Sai de lá com a cabeça dolorida e com uma sensação ruim sobre o meu desempenho. O pior é que precisava rapidamente recuperar meu ânimo, porque uma hora e meia depois já deveria estar de volta à mesma sala, para enfrentar outra maratona de mais 4 horas e meia de prova com as matérias Contabilidade, Direito Constitucional e Direito Tributário.

 

Fui em casa almoçar, ressaltando que só pude fazer isto porque em Belém tinha uma estrutura familiar que facilitou muito esta parte logística do concurso. Caso estivesse em uma cidade totalmente estranha, no máximo iria a pé ao meu hotel para almoçar; mas se não pudesse ir a pé, ficaria ali por perto do local de prova, comeria em algum restaurante próximo uma comida bem leve, nada de feijão, carne vermelha em excesso e comidas muito gordurosas que retardam o processo digestivo, e que com certeza iria atrapalhar na segunda etapa de provas do dia.

 

Novamente preciso frisar que:

 

 

 

 

 


 

 

 

Outro detalhe importante neste intervalo entre a prova da manhã e a da tarde é evitar ficar conversando e se desgastando com outros candidatos, a não ser que seja para falar de outros assuntos que não sejam a prova.


E mesmo assim somente fatos amenos e sem profundidade ou emoções. Lembro que neste concurso ouvindo comentários de outros candidatos, guardei o que um falou a respeito da prova de Aduana dizendo que foi fácil demais. Não posso negar que aquilo quase abalou a minha estrutura mental, pois se uma prova que achei difícil foi fácil para a maioria dos candidatos, o que dizer das outras em que fui melhor? O fato é que posteriormente todos os melhores cursinhos do Brasil comentavam que esta mesma prova foi extremamente complexa e trabalhosa, sendo o diferencial naquele concurso.


Nos intervalos de provas evite conversar e se desgastar com outros candidatos. Portanto, nada de conversas sobre a prova, o efeito mental pode ser devastador. E também evitem qualquer tipo de conversa muito acalorada sobre temas polêmicos do Brasil, do mundo, do ser humano, do FMI. Evitem as discussões sobre futebol, religião e política.


Digo isto porque ocorreu outro fato inusitado em uma prova em que fui fiscal. Na hora do almoço fui a uma lanchonete ao lado do colégio onde estavam sendo realizadas as provas. Lá almoçavam diversos candidatos, muitos conversavam calmamente sobre a prova, outros sobre assuntos variados, porém uma mesa me chamou a atenção pelo volume com que os candidatos conversavam, ou discutiam sobre política, já nem lembro mais sobre o que exatamente eles estavam falando. O fato é que estava claro o desgaste que estavam tendo discutindo a respeito de algo que nunca chegariam a um consenso, e perdendo a chance de recuperar o organismo
para a próxima bateria de provas que iriam fazer à tarde.

 

Nas provas evite camisas de time de futebol, partidos políticos ou que chamem a atenção. Tudo deve estar direcionado para a concentração.

 

Tenha como regra que “no campo de provas, tudo deve estar voltado para a concentração”. Procurem relaxar, ouvir uma música, ficar próximos a alguma área verde, respirando calmamente. Se tiverem um relógio com alarme, programem-no para despertá-los em quinze minutos e tirem um cochilo. Não recomendo o estudo de matérias neste intervalo.

 

Um dia inteiro de provas é uma verdadeira maratona. Se o candidato utilizar o tempo de descanso estudando ainda mais, pode ser que seu corpo e sua mente se ressintam disso durante a segunda etapa de provas. Lembrem-se de que nem sempre estudar ininterruptamente é o melhor caminho, também precisamos de descanso para manter a saúde mental e corporal.

 

 

 

 

Lembro que dormi 15 minutos em uma rede na casa da minha tia neste intervalo. O sono foi revigorante, minha mente precisava daquilo. Levantei bem disposto, tomei um banho e retornei ao local das provas.


Realizei, novamente, todos os procedimentos de chegada na sala de provas já mencionados nas duas provas anteriores e finalmente sentei em minha cadeira preparado para aquela última etapa de provas. As provas seriam Contabilidade, Direito Tributário e Direito Constitucional.


Entre as três a que tinha maior dificuldade era Contabilidade e maior facilidade Direito Tributário, colocando o Direito Constitucional no meio termo. Como já explicado no capítulo “Divida os Tempos de Cada Prova”, comecei por Tributário, finalizando a prova em menos de 1 hora.

 

Como havia estipulado 1 hora e 15 minutos para esta prova, o saldo já fui deslocando para Contabilidade. A prova de Constitucional também foi tranqüila, sobrando tempo.


Enfim, parti para Contabilidade, uma prova que me assustava desde o início do concurso, tanto que procurei me especializar ao máximo no último mês, realizando um cursinho específico de correção de exercícios de Contabilidade. Fui resolvendo cada exercício com atenção máxima e considerando cada um uma vitória. Sabia que deveria acertar pelo menos 8 das 20 questões para não ser eliminado. As que considerei grandes demais fui pulando para depois tentar voltar para fazer conforme a disponibilidade de tempo. Meu interesse ali era ter a certeza de que havia acertado pelo menos 8 questões, então nada melhor do que procurar as mais fáceis logo.


A estratégia deu certo, tanto que me senti muito mais relaxado para concluir aquela prova depois que tive certeza de ter acertado 10 questões.


Neste ponto também é bom lembrar a teoria descrita no capítulo do “Chute Colocado”. No final fiquei em dúvida entre duas letras em 6 questões.

Seguindo esta teoria escolhi a letra que mais se repetia em minhas dúvidas e assinalei a mesma em todas as questões. A combinação do fator relaxamento por já ter acertado mais de 8 questões com certeza, a teoria do chute colocado e a preparação em que me encontrava para aquela prova, fez com que acertasse 17 das 20 questões.

 

Em Direito Tributário acertei 19 das 20 questões, errando 1 questão apenas por aquela mania que o estudante tem de “procurar chifre em cabeça de cavalo”. Sabia qual era a opção correta, mas por achar que era fácil demais, acabei marcando outra opção, deixando de gabaritar a prova. Em Constitucional meu desempenho foi apenas razoável, acertando 14 das 20, o que era de se esperar em uma disciplina com volume de detalhes superior às outras duas juntas.


Concluí aquela bateria de provas com folgas no tempo, entregando a prova com 3 horas e meia de duração, 1 hora antes do prazo final para entrega. Fui para casa seguro de que tinha feito uma boa prova. Minha única dúvida no concurso era quanto ao desempenho na prova específica de Aduana.


Somente 1 semana depois, já de volta ao Rio de Janeiro, pude conferir o gabarito das provas com meu irmão. Aquele momento se transformou em um dos mais inesquecíveis da minha vida, meu irmão ia cantando o gabarito da prova e eu ia marcando um “certo” ao lado das questões que havia acertado. Ao final de nossa conferência percebi que havia acertado 80% da prova. Um desempenho muito bom para aquele nível de dificuldade.

 

Senti que tinha passado.


Mesmo assim fui no dia seguinte aos cursinhos que freqüentava para perguntar aos professores o que eles achavam daquela pontuação. Todos foram unânimes em dizer que eu já tinha passado e devia começar a preparar minhas malas para morar fora do Rio de Janeiro.

Dei a notícia em casa, todos ficaram muito alegres, porém ainda um pouco apreensivos, já que o resultado ainda não tinha sido publicado nos jornais. Esperamos mais uns 15 dias até que minha namorada ligou dando a notícia de que eu havia passado em 8° lugar e que meu nome estava nos jornais na lista dos aprovados.


Daí pra frente a felicidade foi geral, a realização de um sonho, a abertura de novos horizontes na vida, a possibilidade de construir uma carreira na área pública e a coroação de todo um esforço concentrado e direcionado para aquele resultado.

Sinceramente jamais esquecerei estes dias.

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COMIDAS TÍPICAS NEM PENSAR

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DESCANSO É FUNDAMENTAL

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